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Domingo 21 Dez

Missão a bordo de uma lancha de fiscalização - Fiscalizar o mar a alta velocidade

Quinta, 18 Fevereiro 2010 00:00


FISCALIZAR-ALTA-VELO-1

As missões das lanchas fiscalização da Marinha passam despercebidas à maioria da população, mas contribuem todos os anos para a vigilância das águas portuguesas e o salvamento de vidas. Uma nobre responsabilidade a que a guarnição da lancha "Cassiopeia" se dedica incondicionalmente.

Outra faceta da Marinha


No porto de Sesimbra, a luz do sol conta ainda poucas horas e já a guarnição da "Cassiopeia", uma lancha fiscalização rápida (LFR) da Marinha, prepara mais uma missão. Ao fundo, o mar aguarda com uma ondulação leve que faz esquecer que as suas missões podem ser tudo menos calmas. Na realidade, este navio conduz acções de fiscalização marítima e, secundariamente, de combate ao tráfico de droga ou imigração ilegal e de busca e salvamento.
Concentrado, o seu comandante, o 2º Tenente José Coelho, com 28 anos, dá indicações na saída da barra do porto. Esta seriedade dá lugar a entusiasmo quando, uma vez no mar, começa a falar do navio que comanda desde 2006. As suas missões de serviço público constituem "uma outra faceta da Marinha", explica. A Marinha evoluiu para uma força de duplo uso, apta a responder a mais que as clássicas missões de combate.
A "Cassiopeia" opera, em geral, entre as três e 12 milhas - eventualmente até às 50 milhas. Contudo, as exigências das missões reais podem esticar estes números: na procura dos destroços de uma avioneta ao largo da costa, em Julho em 2008, esta chegou a operar nas 200 milhas.

Normalmente navega na Zona Marítima do Sul, entre Odeceixe e Vila Real de Santo António, e na Zona Marítima do Centro, entre Pedrógão Grande e Odeceixe. Uma LFR está atribuída à zona centro, com outra de reserva na Base Naval de Lisboa (BNL) e a sul existem outras três LFR, com uma em reserva.

Projecto português


A "Cassiopeia", construída nos estaleiros de Vila Real de Santo António, entrou ao serviço em Novembro de 1991. Faz parte da classe "Argos", composta por cinco lanchas com uma velocidade máxima de 28 nós. Em 2000 e 2001, foram incorporadas mais quatro lanchas da classe "Centauro" com algumas melhorias relativamente ao projecto inicial. A similitude entre as duas classes traz, claramente, vantagens para a logística e treino. O Comandante Coelho salienta a grande autonomia do navio, que permite uma "viagem directa entre Lisboa e o arquipélago da Madeira" ou "quatro dias de permanência no mar". Apesar das suas 85 toneladas, estes navios vencem mares bravos: podem navegar a toda a velocidade em mares com ondulação até três metros e ventos até 50 km/h.
Como armamento, esta lancha possui duas metralhadoras Browning de calibre 12,7mm e armamento individual para vistorias.

Fiscalizar as pescas


Nesta missão, entre a saída e chegada à BNL passou uma semana. Diariamente navegam-se em média oito horas, um período apenas limitado pela resistência do comandante, o único habilitado a pilotar o navio. Mas em muitas missões este valor é novamente ultrapassado, admite o oficial quFISCALIZAR-ALTA-VELO-3e entrou para a Escola Naval em 1998.
A guarnição tem oito elementos: um oficial, um sargento e seis praças. Quatro fazem serviço à ponte e os restantes estão em prevenção para vistorias. Uma vistoria ocorre com Sesimbra ainda no horizonte, quando a "Cassiopeia" avista um pequeno barco de pesca e inicia contacto via rádio. Comunica-se o envio de uma equipa de vistoria a bordo. Um semi-rígido de quatro metros é colocado no mar, em escassos minutos, por meio de um poço na popa da lancha. A equipa de três homens, explica o Comandante Coelho, "fiscaliza documentos, material de salvamento e combate a incêndios, pescado e material de pesca", num processo que "pode chegar às duas horas nos navios de maior porte" que tenham que recolher as extensas redes de pesca. Depois, estes dados são inseridos num sistema informático da Direcção Geral de Pescas, o que permite conhecer o historial de vistorias de cada barco.
Para fiscalizações, a "Cassiopeia" apoia-se no radar para localizar os navios e nas comunicações em VHF para detectar actividades ilícitas - recurso prejudicado pelo crescente uso de telemóveis na costa, mas ainda eficiente em alto mar. As missões conjuntas com a Força Aérea fazem parte da rotina. Por exemplo, os Aviocar de vigilância marítima operam com as LFR reportando posições de navios de pesca.

Em missão, os horários e rotas variam para tirar partido do efeito surpresa. Por vezes, as missões são mesmo conduzidas sob a escuridão da noite. Para situações de maior risco, a "Cassiopeia" pode embarcar elementos do Pelotão de Abordagem ou da Polícia Marítima. Contudo, a mera presença do navio é, muitas vezes, suficiente para dissuadir uma resposta agressiva. Este "sai para muitas missões de risco mas, felizmente, em poucas é obrigado a agir", sintetiza o Comandante Coelho, ciente dos perigos inerentes a acções como o combate ao narcotráfico.

Missões militares


A "Cassiopeia" cumpre, ainda, missões de natureza estritamente militar, como o acompanhamento da entrada e saída de navios de guerra estrangeiros no porto de Lisboa. Recentemente, escoltou o impressionante cruzador russo "Moskva" na sua passagem pela capital portuguesa. Uma missão tensa, onde o navio tem ordem para responder imediatamente a qualquer ameaça. No exercício militar "Swordfish 2008" coube-lhe o papel inverso: a Cassiopeia simulou ameaças assimétricas à força da Marinha, puxando os dois motores de 1700 cavalos à velocidade máxima para testar a defesa dos navios contra uma hipotética lancha terrorista.

Vida a bordo


Os militares embarcados funcionam como uma equipa onde cada um tem uma especialidade - artilharia, máquinas, comunicações, electrotecnia e mestre de navio - e, se necessário, pode substituir um dos outros elementos. Dois elementos possuem, também, o curso de socorrismo.
O Comandante Coelho salienta que o porte do navio é uma das causas para o "relacionamento próximo entre os membros da guarnição" mas salienta que, na hora de cumprir a missão, cada tripulante deve saber separar trabalho e momentos de descontracção. O esforço da guarnição está longe de ser pequeno: em 2007, o navio esteve em missão 185 dias e navegou perto de mil horas. E, regressando a terra, a navegação dá lugar ao trabalho administrativo, na logística e na manutenção e reparações pontuais.
O ciclo operacional das LFR é de três anos, a que se seguem oito meses em manutenção. Uma vez que uma comissão de comando dura dois anos, a cada ciclo operacional o navio conhece dois comandantes. Os restantes elementos podem embarcar entre dois a quatro anos. O militar mais antigo está embarcado desde 2005 e o mais recente desde o final de 2007. O Cabo Jesus Pereira, 37 anos, está na "Cassiopeia" há um ano, após ter passado pela Esquadrilha de Helicópteros e pela Escola de Fuzileiros. Na Marinha por "espírito de aventura", deixa claro que a vida a bordo vai além das missões operacionais e inclui momentos de descompressão - como uma subida pelo Guadiana.
O refeitório desafia o espaço do casco e oferece um ponto de encontro para descanso da guarnição. As condições são elogiadas por todos, usando como comparativo as encontradas nas fragatas "Cte. João Belo" - nas quais cinco elementos, incluindo o comandante, embarcaram. O navio possui uma exígua cozinha, onde, rotativamente, um elemento assume o papel de cozinheiro. O restante espaço inclui os alojamentos das praças, o camarote do sargento e o camarote do comandante com camas para dois oficiais. Nesta missão, seguia a bordo o 2º Tenente Paciência da Silva para formação - pois iria assumir o comando de uma lancha desta classe.
Nos tempos livres, a guarnição explora várias actividades entre conversas, a televisão por satélite, o mergulho, as saídas nos portos ou os passeios nas bicicletas que, desmontadas num camarote, esperam por terra firme.

Guardadores de mares


A pátria, escreveu Miguel Torga, é um palmo de terra defendido. Mas com uma costa extensa, Portugal conta com mais que um território limitado à península, possuindo com uma vasta e importante área marítima.
Navios como a "Cassiopeia" são, pois, um investimento essencial para garantir a preservação de recursos, a segurança e cumprimento das leis no mar. Uma responsabilidade que estes nobres "guardadores de mares" têm sabido cumprir com persistência e trabalho de equipa.

Mulheres nos navios da Marinha


Ao receber o comando, em 2006, da lancha Sagitário, a 2º Tenente Gisela Antunes não só cumpria o sonho de qualquer oficial na Marinha, como se tornava também a primeira mulher a assumir tal responsabilidade. Um marco importante, sobretudo quando as primeiras vagas para mulheres, na classe de praças, surgem apenas em 1992 e as primeiras vagas para oficiais em 1993. Hoje, Gisela Antunes comanda uma companhia na Escola Naval, mas antes outra mulher recebeu o comando de uma segunda lancha - tarefa que continua a desempenhar. O papel das mais de 800 mulheres que hoje servem na Marinha está longe de se resumir a tarefas administrativas e, inclusivamente, muitas embarcam em unidades de combate como as fragatas "Vasco da Gama".


Pedro Manuel Monteiro
Sobre o autor:
Texto e Fotografias


 

Comentários 

 
#1 2010-02-21 23:58
Gostei imenso deste artigo, onde transparece o elevado grau de satisfação por quem o usa: a sua guarnição. Foi um projecto de elevado sucesso, de que fui o autor e, como tal, sinto-me bastante orgulhoso. qualquer dia, escrevo um artigo a explicar porque e como é um projecto de sucesso.
Citação
 

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