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Quinta 19 Out

Recordando a Sociedade Geral


Em Julho de 1919, o industrial Alfredo da Silva, que se encontrava à frente da Companhia União Fabril - CUF, fundou uma firma armadora, a que foi dado o nome de Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes, que ficaria conhecida nos meios marítimos, simplesmente, por Sociedade Geral - SG.

Foi uma das mais importantes empresas armadoras de Portugal, tendo possuido durante os seus cinquenta e três anos de vida, cinquenta e sete navios, não incluindo rebocadores.

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O primeiro navio a integrar a frota da Sociedade Geral foi construído na Alemanha, em 1899, chamando-se "Werner Kuntsmann", e fora comprado em 1912 pela Empresa de Serviço Costeiro, Lda., de Lisboa, que o rebaptizara de "Lisboa", nome que foi mantido pela CUF quando o adquiriu em 1916. Em Julho de 1919, aquando da fundação da Sociedade Geral, o pequeno "Lisboa" viria a ser a sua primeira unidade (1) seguida, em 1922, por uma outra, o cargueiro "Monmouth Coast", o qual foi rebaptizado "Silva Gouveia".

Vários outros navios foram sendo comprados, mas em 1945 a frota da SG, à semelhança das dos outros armadores portugueses, encontrava-se muitissimo envelhecida e depauperada  pelo esforço ingente despendido durante a II Guerra Mundial, sendo constituída, na sua maioria, por navios velhos, obsoletos, gastos, lentos e antieconómicos, cuja conservação e reparações constantes eram extremamente onerosas.

Vejamos qual era, à data, a constituição dessa frota: compunham-na dezassete navios de carga geral assaz antigos, adquiridos em segunda mão e ainda propulsionados por máquinas a vapor de tríplice expansão (2) que se chamavam "Maria Cristina", "Pinhel", "Costeiro" e "Mello" comprados em 1922, "Gaza", "Inhambane", "Amarante" e "Maria Amélia" comprados em 1924, "Luso", "Mirandella", "Cunene" e "Saudades" adquiridos em 1925, "Mira-Terra" comprado em 1926, "Alferrarede" em 1927, "Zé Manel"e um segundo "Silva Gouveia" comprados em1928 (uma vez que o primeiro fora abatido em 1927, por inútil), e o "Foca", adquirido em 1942.

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De notar que nove destes dezassete cargueiros comprados pela SG tinham pertencido aos "Transportes Marítimos do Estado" cuja frota fora constituida pela quase totalidade dos setenta navios alemães e pelos dois austro-húngaros que, encontrando-se surtos em portos portugueses, tinham sido requisitados e apresados por ordem do Governo Português, em 1916. Aquelas nove aquisições foram feitas na sequência da falência dos "Transportes Marítimos do Estado" ocorrida em Setembro de 1922. Havia também um velho navio-tanque que fora construído em 1914, na Grã-Bretanha, que a SG comprara em 1945 e rebaptizara "Monchique".

Em 1933, pela primeira vez, integrou a frota, um vapor não adquirido em segunda mão, antes acabado de construir no estaleiro da CUF, no Barreiro, ao qual foi dado o nome de "Costeiro Segundo". Existiam ainda quatro cargueiros, encomendados pela SG ao estaleiro da Administração Geral do Porto de Lisboa, situado na Rocha Conde de Óbidos e explorado pela CUF, já propulsionados por motores diesel, cujas datas de construção oscilavam entre 1938 e 1944, que receberam os nomes de "África Ocidental", "Alexandre Silva", "Costeiro Terceiro" e "São Macário", mas que eram unidades pequenas cujas arqueações líquidas totalizavam somente 3253  toneladas Moorson, que o mesmo é dizer 9212 m3.

Não admira pois, que o despacho nº 100, de 10 de Agosto de 1945, promulgado pelo Ministro da Marinha C.m.g. Américo de Deus Rodrigues Thomaz, visando a renovação e reorganização da nossa Marinha de Comércio, tivesse consagrado à Sociedade Geral maior número de navios do que a qualquer outra das nossas companhias armadoras.

Assim, no espaço de poucos anos, de 1948 a 1955, a frota da Sociedade Geral foi aumentada com vinte navios novos: dez grandes cargueiros, os seis "A's", "Alcobaça", "Alenquer", "Almeirim", "Arraiolos", "Ambrizete" e "Andulo"e os quatro "B's", "Belas", "Borba", "Braga" e "Bragança", construídos por encomenda da SG a estaleiros britânicos; os quatro "C's", cargueiros mais pequenos, de construção canadiana, "Cartaxo", "Colares", "Coruche" e Covilhã"; os cargueiros gémeos "António Carlos" e "Conceição Maria", e os quatro navios de passageiros "Alfredo da Silva", "Ana Mafalda", "Rita Maria" e "Manuel Alfredo", todos os seis construídos em Lisboa, no estaleiro da CUF, na Rocha Conde de Óbidos. Em 1947 foi adquirido, em segunda mão, um grande navio de carga que tinha sido construído no Canadá e ao qual foi dado o nome de "Alcoutim".

Estas vinte e uma unidades permitiram que os velhos vapores anti-económicos fossem sendo, a pouco e pouco, vendidos para a sucata.

Mais tarde, já fora do âmbito do despacho nº 100, em 1957-1958, foram construídos no  mesmo estaleiro da CUF, situado na Rocha Conde de Óbidos três pequenos cargueiros gémeos que fizeram ressuscitar os nomes de navios abatidos, "Maria Christina", "Mira-Terra" e "Silva Gouveia", e também um pequeno navio de passageiros para a cabotagem entre as Ilhas do Arquipélago de Cabo Verde, a que foi dado o nome de "Santo Antão". Houve ainda a aquisição de sete navios, seis deles em segunda mão, a saber: o cargueiro "Pinhel", em 1956, o graneleiro "Monchique", em 1964, que não foi mais do que a transformação do navio-tanque da Soponata "Bornes", o belo paquete "Amélia de Mello", em 1966, que navegara cerca de dez anos com a bandeira de Israel e com o nome "Zion" (3), o navio de carga "Cabinda" em 1969 e no mesmo ano o grande cargueiro "Cunene", adquirido ao estaleiro polaco que o construiu e o pôs à venda devido ao facto de o armador grego que o encomendara não ter podido assumir os compromissos financeiros contratuais (4), e, para finalizar, em 1971, dois navios de carga noruegueses, gémeos, que tinham sido construídos na Alemanha e que na SG receberam os nomes de"Cabo Bojador" e "Cabo Verde". Foram estas duas as últimas unidades a integrar a frota da Sociedade Geral.

socgeral02Este extremamente sucinto apontamento sobre o que foi a Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes não pode ser encerrado sem se fazer referência a um segmento do transporte marítimo a que aquele armador se dedicou e com assinalado êxito, tendo sido a única empresa de navegação portuguesa a explorar tal actividade. Referimo-nos aos numerosos reboques oceânicos efectuados pela SG entre 1953 e 1970 com os seus rebocadores de alto-mar, "Praia da Adraga" e "Praia Grande", que eram simultâneamente salvadegos e que tinham sido construídos, estes também, no já varias vezes citado estaleiro da Administração Geral do Porto de Lisboa, explorado pela CUF.

Era uma actividade não isenta de grandes riscos, exigindo uma técnica muito específica, que encheu de prestigio aquele armador e, por arrastamento, a Marinha Mercante Portuguesa e sem dúvida os colegas que comandaram os mencionados rebocadores-salvadegos.

Em 1972 verificou-se a fusão da Sociedade Geral de Comércio, Indústria e Transportes com a Companhia Nacional de Navegação. Em consequência os navios da SG foram englobados na CNN, cujas cores passaram a usar ....

 

N. A. :

(1) - O "Lisboa" foi desmantelado em 1928, no Barreiro, e a sua máquina a vapor foi aproveitada para propulsionar o rebocador "Estoril", construido em 1932 para a SG, no estaleiro da CUF,no Barreiro.

(2) - Excepção feita ao "Mirandella" cuja máquina alternativa era de quádrupla expansão.

(3) - Um paquete gémeo do "Zion", chamado "Israel", foi adquirido pela Empresa Insulana de Navegação que o fez rebaptizar "Angra do Heroísmo".

(4) - Um navio gémeo do "Cunene" foi adquirido em circunstâncias analogas pela CNN, que o rebaptizou "Bailundo".



José Ferreira Dos Santos
Sobre o autor:
Capitão da Marinha Mercante e
Membro Efectivo da Academia de Marinha

 

Comentários 

 
#2 2012-12-07 04:44
Ao cuidado do Sr. capitão José F. Santos,
Caro amigo e Sr.
Tenho algumas dúvidas relativamente ao facto do navio Lisboa ter sido o primeiro navio da frota da Sociedade Geral. Quando muito podia ter sido o primeiro navio da Companhia União Fabril, mas também não foi.
Nesta conformidade e salvo melhor opinião, o primeiro navio da C.U.F. foi o lugre Lusitano, sendo o vapor Lisboa a sua segunda unidade. A frota da Sociedade Geral terá tido início a partir de 1919, mas só em 1922 tem o início de actividade após a compra dos navios Silva Gouveia, Pinhel, Costeiro e Maria Cristina, adquiridos nesse mesmo ano.
Muitos cumprimentos,
Reinaldo Delgado
Citação
 
 
#1 2012-02-27 23:05
Eu ando a procura do meu visavo com o apelido de Nascimento. So o que sabemos e que ele era capitao na Marinha Mercante de Portugal entre 1850-1950 aprocimaca. Sera possivel encontrar informacao sobre este individio. O havera alguma Web-site que eu possa visitar para encontrar esta informacao? Qualquer informacao, mesmo pouca que seja e muito apreciada.

Obrigado,
Maria Odete Nascimento
Citação
 

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